29/10/2007
Os Direitos do Homem

DANUZA LEÃO

Os Direitos do Homem

Todos temos diarimanete, sempre, um monte de compromissos, sejam eles de um trabalho que se ficou de entregar até o final da semana, ao médico marcado, à ginástica. Tirando alguns deles, é preciso aprender, desde cedo, que não somos obrigados a quase nada, e até o filme que tanto queremos ver pode esperar até chegar no clube de vídeo ou passar na TV. Afinal, somos escravos de uma agenda ou pessoas livres?

É difícil ter consciência disso. Até os compromissos que assumimos com nós mesmos são dificílimos de serem cancelados, pois afinal - como apreendemos - compromisso é compromisso.

Exemplo: você se programou para viajar no fim do ano e sair fora do estresse das festas, de ouvir e ter que dizer Feliz Natal 500 vezes, para ficar só numa praia deserta olhando o mar e comendo peixe frito. Tudo bem, é seu direito. Mas lá pelo fim de novembro vai dando uma agonia; e se chover? E se o lugar indicado não for tão sensacional quanto dizem? E se cair em depressão? E o medo de se sentir tão só que corre o risco de cair em prantos no ombro do primeiro desconhecido que aparecer? Começa a se sentir mal, mas a última coisa que passa pela sua cabeça é que bastaria um telefonema, um só, para resolver o problema?

Outra situação clássica é estar no melhor lugar do mundo, comendo as coisas mais deliciosas; comprando o que queria; e dar uma vontade louca de voltar antes da data prevista; e a coragem? Agora me diga: coragem de quê? Afinal você é ou não livre pra ir e voltar de onde quiser, a hora em que quiser?

Agora, uma coisa mais banal ainda: está fazendo frio, você acordou mais tarde do que de costume e tem ginástica às 4:00 hs. Ginástica pra você é sagrada, pois é uma questão de saúde, bem estar, e todos temos a obrigação de nos cuidar; mas aquele dia não está dando, e você começa a sofrer. Sofrer porque não passa por sua cabeça que é só cancelar a ginástica e ficar vendo um filme, mesmo idiota, na televisão. Afinal, não estamos no exército, e talvez esta tarde passada em casa, com os gatinhos deitados no mesmo sofá que você; te faça mais bem a alma, do que um ano de exercícios físicos.

Evite sofrer, ao menor sinal de que vai começar a tortura, pense em primeiríssimo lugar no que você quer, e siga seu coração, sem culpas, nem arrependimentos, porque esse é um dos maiores direitos do homem.

Folha de São Paulo, agosto de 2007.

 

     
 
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