Quer aumentar as vendas? Antes de responder que sim, cuidado: você pode conseguir o que deseja. E se arrepender depois. Na busca de maior participação de mercado, é tentador jogar o preço na lona. E aí é para a lona que também costumam ir os lucros. A afirmação é do consultor alemão Hermann Simon, fundador da Simon, Kucher & Partners, uma das maiores consultorias do mundo na área de precificação e estratégia. Entre as vítimas da guerra de preços há companhias de todo o calibre, da General Motors à mercearia da esquina.
Simon abordará o tema em uma palestra no Fórum Mundial da Lucratividade, neste mês de março, em São Paulo. Antes de arrumar as malas, ele conversou por telefone, de seu escritório em Bonn, na Alemanha, com Pequenas Empresa & Grandes Negócios. A seguir, os principais trechos da entrevista.
O senhor critica a busca desenfreada pela maior participação no mercado. Por quê?
SIMON: Muitas empresas se orientam pela participação de mercado apurada com base no faturamento ou na quantidade de unidades vendidas. Diante disso, aplaudem qualquer cescimento das vendas. Mas como conseguem vender mais? Cortando preços. Esquecem-se de que a manobra costuma arriunar a margem de lucro e pôr em risco o futuro do negócio. Não que eu seja contra a busca de maior fatia do mercado. Pelo comtrário: sou fã do aumendo das vendas. Mas desde de que ele seja resultado de inovação e um bom desempenho, não redução dos lucros.
Como as guerras de preços costumam começar?
Geralmente uma empresa começa a cortar preços para se desfazer de um grande estoque ou ganhar mercado para aproveitar mais sua capacidade de produção e distribuição. Como a concorrência responde? Com outro corte de preços. Resultado: quem tomou a iniciativa não atinge seu objetivo e corta os preços outra vez. Aí a concorrência pode responder com mais descontos. Depois que o processo começa, é muito dificil conseguir voltar a praticar os preços anteriores.
Quer dizer que as guerras de preços nunca valem a pena?
Não são sempre uma má estratégia. Veja o sucesso da IKEA ( rede sueca espealizada em móveis residenciais de baixo preço, com260 lojas na Europa, nos Estados Unidos, no Canadá, Japão e em outros países da ASIA). Ela tem produtos muitos baratos. Mas, para isso, opera com custos extremamente baixos. É o cliente quem leva para casa os móveis e os monta sozinho, o que garante à rede uma grande economia com a mão-de-obra. Para vender por menos, é preciso que toda produção, administração, distribuição e cadeia de fornecedores estejam orientada para o baixo custo. Esse arranjo é praticamente imposivel nas empresa tradicionais que não foram estruturadas, já na sua origem para não operar com custos tão reduzidos. O caso de GM mostra bem isso. Há três anos suas concessionárias começaram a oferecer descontos de aproximadamente 20% nos Estados Unidos. Com a medida, a fatia da montadora no mercado americano subio de 22% para 35%. Mas como os custo continuavam altos, a empresa mergulho fundo no vermelho, totalizando um prejuízo global de US$ 10 bilhões em 2005. A solução foi acabar com a polÍtica com grande descontos. Em 2006,o preço médio de carros da marca subiu 18% . O volume de cendas caiu 7%, mas, ainda assim, a margem de lucro aumentou 328%.
Quais as empresas menos sujeitas as guerras de preços ?
Empresas inovadoras ou com diferenciais de mercado são as menos vulneráveis. Pense na Starbucks. Seu café é pelo muito caro. Mas não é pelo café que a empresa consegue manter o preço. É pelos ambiente das lojas, pois de aumentar seus preços em 60%, ainda assim comseguiu que o volume de unidades vendida crescesse 20%. Isso é o que chamamos de efeito esnobe. Relógios caros dão prestígio e exclusividade. Se você compra um modelo por US$ 20.000, não gostaria de vê-lo na vitrine por US$ 15.000. Você se sentiria traído, enganado.
Como pequenas empresas podem evitar as guerras de preços ?
A guerra de preço é especialmente danosa para as empresas menores, que tem menos força para competir com as grandes. Mas os pequenos podem tirar vantagens do fato de ter uma revelação mais especial com os cliente para melhorar os produtos ou serviço. Com isso, ganham condições de cobrar mais. O problema é que muita gente não age assim. Quer um exemplo? Há algum tempo, fui a uma pequena loja perto de casa para comprar uma televisão para o meu filho, que mora em outra cidade. Como era de se esperar, o aparelho custava mais que nas grandes redes. Mas eu estava disposto a apagar o preço desde de que fizessem e entrega naquela mesma tarde, pois meu fulho precisava viajar no dia seguinte, já com a TV. Expliquei o caso, mas eles disseram que só poderiam entregar depois de dois dias. Resultado: fui até um grande varejista comprar o televisor. Se a pequena loja realmente não quisesse perde o negócio, poderia ter contratado um táxi para me entregar a TV. Quem não pode competir com um preço tem então de oferecer um serviço melhor. Não há outra alternativa.
O que mais é possível fazer para manter as margens de lucro?
É importante acertar na forma de remuneração dos vendedores que tem autonomia para negociar os preços diretamente com os clientes. Quem dá comissões atreladas ao valor da venda pode acabar incentivando descontos generosos demais. Supondo, por exenplo, que você tenha uma margem de 20%, se o vendedor conceder um desconto de 10%, já terá sacrificado 50% de margem. Ainda sim, só perderá 10% de sua comissão -algo que ele pode recuperar aumentanto as vendas com o incentivo de novos descontos. Para evitar que isso ocorra ,deve-se atrelar as comissões à margem de lucro, não ao valor das vendas. Se toda vez que o lucro cair a comissão diminuir na mesma proporção, os vendedores se esforçaram bem mais para manter o resultado da empresa. |